autopoiese
A noção de “autopoiese” refere-se, antes de mais, à capacidade de auto-produção do ser vivo. Mas a autonomia vulgarmente conferida aos processos biológicos (tais como a produção de células e de moléculas e a transformação de determinadas matérias em outras) não passa, porém, de uma frágil e falsa caracterização. A verdade é que o metabolismo do ser está intimamente ligado a factores exógenos e, por isso mesmo, a sua sobrevivência não está apenas assegurada por uma auto-manutenção. É necessário ter em conta que o ser vivo, seja ele vegetal ou animal, necessita de estabelecer uma relação com o meio-exterior onde está inserido. Paradoxalmente, o ser constitui-se como auto-suficiente e dependente. Neste sentido, o conceito de “autopoiese” deixa estar exclusivamente ligado à biologia: ele próprio se manifesta como fenómeno social.
É bastante claro que o ser humano, sendo parte constituinte de um contexto sócio-cultural (e temporal), necessita de relações para viver (e não só para sobreviver). Estas relações são a base da organização social e, por isso mesmo, essa organização reflecte aquilo que somos e aquilo que fazemos quotidianamente. Dito por outra forma, cada acto tomado por um sujeito repercute, de forma mais ou menos directa, na vida de um outro e, portanto, no Mundo.
Esta é a introdução que se faz ao pequeno canto denominado autopoiese, um lugar onde é posto em causa o nosso papel enquanto seres raciocinais e instintivos, autónomos e dependentes, nómadas e inertes, no espaço em que (sobre)vivemos.